Chuteira Preta

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Vivemos tempos conturbados na política. Claro, o futebol, como reflexo da sociedade, também sofre as consequências desse momento critico e delicado, que preocupa não apenas o país, mas todo o resto do mundo.

E, nessa situação, podemos constatar uma coincidência entre a política e o futebol: em ambos, constatamos falta de compromisso, ausência de patriotismo, má gestão, despreparo profissional e acusações de favorecimento e desvios de verba.

O outrora poderoso futebol brasileiro está sem rumo. Passado exatamente 1/3 das eliminatórias para a Copa do Mundo na Rússia, em 2018, estamos na sexta colocação. Ou seja, neste momento, estamos fora da zona de classificação e até da repescagem.

Muitos já antecipavam que essa seletiva seria a mais difícil da história. E não estavam errados. Temos o então líder Uruguai renascido; a Argentina, vice-campeã mundial; o melhor Chile de todos os tempos, campeão sul-americano; o bom time colombiano; a garra paraguaia e o surpreendente Equador.

Vale destacar coisas que são vistas a cada vez que essas seleções entram em campo. O que esses times têm em comum? Entrosamento, filosofia de jogo e muito amor à camisa.

Quanto à Amarelinha, apesar de estarmos em entressafra, temos bons jogadores. A maioria é titular em grandes times da Europa. Entretanto, faltam comando, disciplina tática, liderança dentro de campo, confiança, respeito à cultura brasileira da bola e vontade de servir à camisa mais vitoriosa do futebol mundial.

Há muito tempo o futebol brasileiro passa por mudanças: alijaram os pontas, os camisas dez e, agora, o típico camisa nove, que fazia a alegria do povo.

A propósito, a alegria do torcedor também foi alijada do espetáculo em prol das novas arenas, sem personalidade, superfaturadas e caríssimas. Em busca de números e negociações, deixaram de lado a essência, a alegria do futebol bem jogado, bem como o seu criativo público. Tudo segue uma cartilha. O drible ofende. O gol não é pra ser comemorado.

Que saudade dos craques, dos apelidos dos jogadores, dos campinhos de rua, da chuteira preta, do drible, do improviso e da irreverência do genuíno torcedor não adestrado.

O atual colorido das chuteiras e os penteados exóticos deveriam ser proporcionais ao riso, à emoção de uma jogada bem feita. O patriotismo também deve estar no bico das chuteiras, com a consciência da nossa história no futebol mundial.

 

JOSÉ CARLOS ARAÚJO


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